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A probabilidade do próximo sim: o método de Hunter (1940) aplicado à venda

15/07/2026 · 24 min de leitura

Um engenheiro do National Bureau of Standards resolveu, em 1940, um problema de tubulação tratando o uso dos aparelhos como probabilidade. O mesmo raciocínio calcula a chance do próximo negócio ser um sim, quantos negócios um vendedor precisa trabalhar e quanto risco o gestor está aceitando. Do zero, com toda operação desenvolvida e conferida.

Dimensionar a tubulação de um edifício esbarra num dilema. Projetar para todos os aparelhos abrirem ao mesmo tempo produz tubos enormes, caros e ociosos. Projetar para poucos produz pressão insuficiente no pico.

Em 1940, o engenheiro Roy B. Hunter, do National Bureau of Standards, publicou o relatório BMS65, Methods of Estimating Loads in Plumbing Systems, e tratou o problema como probabilidade. O método foi absorvido pelos códigos de instalações prediais nos Estados Unidos e fora deles, sob o nome de curva de Hunter.

O raciocínio dele responde, com pouca adaptação, a três perguntas que ocupam uma operação comercial:

  • Qual a chance do próximo negócio terminar em venda?
  • Quantos negócios precisam ser trabalhados para que fechar nenhum seja improvável?
  • Que risco o gestor está aceitando quando escolhe esse "improvável"?

Este texto percorre o caminho do zero. Nenhuma letra aparece antes de ser definida.

0. Dicionário de símbolos#

Hunter (1940, p. 3) define os símbolos abaixo. A coluna da direita traduz cada um para a operação comercial.

SímboloEm Hunter (1940)Na vendaUnidade
tduração de um uso do aparelhonão se aplicasegundos
Tintervalo médio entre dois usosnão se aplicasegundos
pchance de um aparelho estar em uso, p = t/Tchance de um negócio decidido virar vendaadimensional
qchance de não estar em uso, q = 1 - pchance de o negócio ser perdidoadimensional
ntotal de aparelhos instaladosnegócios levados até a decisãocontagem
raparelhos em uso no instante observadovendas obtidas entre os ncontagem
mfator de projeto: valor de r não excedido numa fração escolhida do tempoteto de vendas por ciclo, para planejar entregacontagem
wnão se aplicavendas já observadas no históricocontagem
dnão se aplicanegócios já decididos no históricocontagem
a, bnão se aplicavitórias e derrotas atribuídas à crença anteriorcontagem
alphafração do tempo em que o projeto pode falharfração dos ciclos em que se aceita fechar nadaadimensional

1. Tempo convertido em probabilidade#

Hunter observou um aparelho e mediu a duração de cada uso, t, e o intervalo entre usos, T, ambos em segundos. Daí definiu, nas palavras dele:

Nota
"the probability that a particular fixture out of a number, n, will be found operating at any arbitrarily chosen instant of observation is t/T" (HUNTER, 1940, p. 6).
p = t / T

p = chance de um aparelho estar em uso num instante qualquer   [adimensional]
t = duração de um uso                                          [segundos]
T = intervalo médio entre usos                                 [segundos]

Segundos no numerador, segundos no denominador. A unidade se cancela e p resulta num número puro entre 0 e 1.

Considere-se um valor hipotético, escolhido apenas para o exercício: um uso que dura 9 segundos e se repete a cada 300 segundos.

p = 9 / 300 = 0,03

Há 3% de chance de encontrar aquele aparelho aberto num instante escolhido ao acaso.

1.1 A leitura equivalente, e talvez mais útil#

O próprio Hunter (1940, p. 7) registra que a função de probabilidade "may also be interpreted as the percentage or fraction of the time in the long run". Ou seja, a mesma grandeza admite duas leituras:

  • Leitura por instante. Sorteado um instante qualquer, a chance de o aparelho estar em uso é de 3%.
  • Leitura por tempo. Ao longo de todo o período de observação, o aparelho permanece em uso durante 3% do tempo.

A segunda leitura é a que dá sentido físico ao critério de projeto, e será retomada adiante. Em vendas, ela se traduz assim: uma taxa de conversão de 20% significa que, ao longo do histórico observado, 20% dos negócios decididos terminaram em venda.

2. Probabilidade, definida#

Probabilidade é a fração de vezes que um evento ocorre no longo prazo. Lançada muitas vezes, uma moeda equilibrada aproxima a fração de caras de 0,5. Bernoulli (1713) demonstrou essa convergência no resultado hoje conhecido como lei dos grandes números.

A expressão "no longo prazo" carrega o alerta. Com poucas observações, a frequência medida não é a probabilidade. É ruído. A seção 9 trata disso.

3. Ensaio de Bernoulli#

Um ensaio de Bernoulli é um experimento com dois resultados possíveis: sucesso, de probabilidade p, e fracasso, de probabilidade q. Como um dos dois necessariamente ocorre, p + q = 1. Um é o complemento do outro:

q = 1 - p

Com p = 0,20, tem-se q = 0,80. Todo 0,80 que aparecer adiante vem daí.

Hunter (1940)Operação comercial
um aparelho hidráulicoum negócio que chegou a um veredito
em uso (sucesso)ganho
livre (fracasso)perdido
p = t/Tp = w/d
Atenção
Uma tentativa é um negócio que chegou a uma decisão, ganho ou perdido. Os "nãos" pertencem a clientes distintos. Insistir com o mesmo cliente é outro processo: ali as tentativas não são independentes, porque cada conversa altera a relação, e o modelo adequado é outro.

4. As duas regras#

Regra do produto. Eventos independentes ocorrem juntos com probabilidade igual ao produto das probabilidades. Hunter (1940, p. 6) formula o mesmo princípio ao deduzir a chance de vários aparelhos operarem no mesmo instante. Dois negócios perdidos em sequência, com q = 0,80:

P(perdido e perdido) = q × q = 0,80 × 0,80 = 0,64

Regra do complemento. A probabilidade de um evento é 1 menos a probabilidade do evento contrário. Contar "pelo menos uma venda" exigiria somar os casos de uma, duas, três vendas. O contrário é único: nenhuma venda significa todos perdidos.

P(ao menos uma venda em n) = 1 - P(todos perdidos) = 1 - qⁿ

5. Fatorial e combinação, antes de usá-los#

A binomial exige contar de quantas maneiras r sucessos podem se distribuir entre n tentativas. Essa contagem é o coeficiente binomial, e sua origem é o fatorial.

Fatorial. O símbolo n! denota o produto de todos os inteiros de 1 até n. Ele conta as ordens possíveis de n objetos distintos.

5! = 5 × 4 × 3 × 2 × 1 = 120
2! = 2 × 1 = 2
3! = 3 × 2 × 1 = 6

Por que n! conta ordens: há n escolhas para a primeira posição, n-1 para a segunda, e assim por diante até restar uma única opção.

Combinação. Ao escolher r objetos entre n, a ordem interna não importa. Parte-se das n! ordens totais, elimina-se a ordem interna dos r escolhidos, dividindo por r!, e a dos n-r não escolhidos, dividindo por (n-r)!:

C(n,r) = n! / ( r! × (n-r)! )

n = total de elementos disponíveis        [contagem]
r = quantos serão escolhidos              [contagem]
C(n,r) = número de escolhas possíveis     [contagem]

Hunter (1940, p. 7) emprega exatamente essa quantidade ao contar de quantas maneiras os eventos de simultaneidade podem ocorrer.

Exemplo. Quantas duplas distintas se formam com 5 pessoas?

C(5,2) = 5! / ( 2! × 3! ) = 120 / ( 2 × 6 ) = 120 / 12 = 10

As dez duplas existem porque "Ana e Bruno" e "Bruno e Ana" são a mesma dupla: as 5 × 4 = 20 ordens se reduzem à metade.

Dois casos que serão usados adiante:

C(n,0) = n! / ( 0! × n! ) = 1        existe uma única maneira de não escolher ninguém   (0! = 1, por convenção)
C(n,n) = 1                           existe uma única maneira de escolher todos

6. A binomial, e a ponte com a venda#

A probabilidade de exatamente r sucessos em n tentativas independentes:

P(r sucessos em n) = C(n,r) × pʳ × q⁽ⁿ⁻ʳ⁾

C(n,r) = de quantas maneiras os r sucessos podem se distribuir   [contagem]
pʳ     = os r escolhidos precisam dar sucesso                    [adimensional]
q⁽ⁿ⁻ʳ⁾ = os n-r restantes precisam dar fracasso                  [adimensional]

Aplicando r = 0, com C(n,0) = 1 e p⁰ = 1:

P(nenhum sucesso) = 1 × 1 × qⁿ = qⁿ
P(ao menos um sucesso) = 1 - qⁿ

A fórmula usada em vendas é, portanto, o termo r = 0 da binomial de Hunter, tomado pelo complemento. Conferência numérica com p = 0,20 e n = 8: a binomial devolve 0,16777216, e 0,80⁸ devolve 0,16777216.

7. Esperança matemática#

A notação E[X] designa a esperança de X, isto é, a média de todos os resultados possíveis, cada um ponderado pela respectiva probabilidade. Para um dado equilibrado, com X igual à face sorteada:

E[X] = 1×(1/6) + 2×(1/6) + 3×(1/6) + 4×(1/6) + 5×(1/6) + 6×(1/6) = 21/6 = 3,5

A face 3,5 não existe. A esperança é o centro de gravidade da distribuição, não um resultado típico.

7.1 Quantos negócios custa uma venda#

Defina-se X como o número de negócios decididos até a primeira venda, incluindo-a. Três observações bastam:

  • A primeira tentativa sempre ocorre, e custa 1.
  • Com probabilidade p, ela encerra o ciclo.
  • Com probabilidade q, ela fracassa. Como as tentativas são independentes, a situação retorna ao ponto inicial, exigindo em média E[X] tentativas adicionais.
E[X] = 1 + q × E[X]
E[X] - q × E[X] = 1
E[X] × (1 - q) = 1
E[X] × p = 1
E[X] = 1 / p

Com p = 0,20, resulta E[X] = 5 negócios decididos por venda, dos quais 4 terminam em não.

Atenção
O passo "a situação retorna ao ponto inicial" é a ausência de memória da distribuição geométrica. Após quatro negócios perdidos, ainda restam, em média, cinco tentativas. Acumular derrotas não aproxima a vitória. A crença contrária é a falácia do apostador, descrita por Tversky e Kahneman (1971) e observada em cassinos por Croson e Sundali (2005).

8. O fator de projeto de Hunter e a margem de risco do gestor#

Hunter não dimensionou para o pior caso. Ele fixou um risco. O relatório define:

Nota
"Design factor m is the particular value of r out of n fixtures that will be found in operation a selected fraction of the time" (HUNTER, 1940, p. 3).

Ou seja, m é o número de aparelhos simultâneos que não será excedido além de uma fração escolhida do tempo. Hunter adotou aproximadamente 1%. Excedido m, a demanda instantânea supera a de projeto, a perda de carga cresce e a pressão nos pontos de utilização cai abaixo do necessário. O sistema falha em atender, e falha em cerca de 1% do tempo de observação. Esse é o significado físico do critério.

A operação comercial enfrenta a mesma decisão, na cauda oposta da distribuição.

Hunter (1940)Venda
Evento de falhamais de m aparelhos simultâneosnenhuma venda no ciclo
Caudasuperiorinferior
Risco aceito1% do tempoalpha dos ciclos
Grandeza procuradam, dado nn mínimo, dado alpha

Para achar o n mínimo, exige-se que a probabilidade de zero vendas caia abaixo de alpha:

qⁿ ≤ alpha

O n está no expoente, e o logaritmo natural o traz para baixo. Como ln(q) é negativo, dividir por ele inverte o sentido da desigualdade:

n × ln(q) ≤ ln(alpha)
n ≥ ln(alpha) / ln(q)

Com p = 0,20, portanto q = 0,80, e alpha = 0,05:

ln(0,05) = -2,9957
ln(0,80) = -0,2231
n ≥ (-2,9957) / (-0,2231) = 13,425
n = 14        (arredonda-se para cima, pois n é contagem)

Verificação: 1 - 0,80¹⁴ = 0,9560, isto é, 95,60% de chance de ao menos uma venda.

50% 80% 90% 95% 99% 0510152025 n = negócios levados até a decisão n=8 n=11 n=14 n=21

A curva mostra o rendimento decrescente: os primeiros negócios compram muita confiança, os últimos compram pouca.

alpha aceitoConfiançan necessárioConfiança obtida
20%80%883,22%
10%90%1191,41%
5%95%1495,60%
1% (o de Hunter)99%2199,08%

8.1 Como ler esses percentuais na prática#

Confiança de 95,60% não é uma promessa sobre um negócio. É uma afirmação sobre ciclos, na mesma lógica em que Hunter fala de fração do tempo.

Um ciclo, aqui, é um conjunto de 14 negócios levados até a decisão. A leitura correta, na mesma lógica de 1.1 A leitura equivalente, e talvez mais útil:

  • Em cerca de 95,6 de cada 100 ciclos de 14 negócios, ao menos uma venda ocorre.
  • Em cerca de 4,4 de cada 100 ciclos, nenhuma venda ocorre. Esse é o estado de falha.
  • Um vendedor que percorra 20 ciclos desses ao longo do ano deve esperar, em média, 20 × 0,044 = 0,88 ciclo sem venda alguma. Aproximadamente um.

O paralelo com o encanamento se fecha: Hunter aceita que o sistema falhe em 1% do tempo; o gestor aceita que o vendedor termine sem venda em alpha dos ciclos. A falha não desaparece. Ela é orçada.

8.2 O teto de vendas, que é o m de Hunter#

A mesma máquina, na cauda superior, responde quanto se pode prometer à operação de entrega. Com n = 14 e p = 0,20, o maior número de vendas que não será excedido em mais de 1% dos ciclos é m = 7, pois P(r ≤ 7) = 0,9976. Com alpha = 5%, esse teto cai para m = 5.

É o fator de projeto de Hunter, definido em 8. O fator de projeto de Hunter e a margem de risco do gestor, aplicado a capacidade comercial em vez de tubulação.

8.3 De onde vem o 5%#

Repete-se com frequência que o nível 0,05 seria uma convenção arbitrária de Fisher. Cowles e Davis (1982) rastrearam a origem e concluem o contrário: a escolha herda convenções do século XIX assentadas no erro provável, depois formalizadas por Fisher. Em sentido oposto, a American Statistical Association (WASSERSTEIN; LAZAR, 2016) adverte que nenhum limiar deve operar como critério automático de decisão.

Para o gestor, a conclusão é direta: alpha não é grandeza estatística, é grandeza econômica. Depende do custo de errar para cada lado, matéria da teoria da decisão (BERGER, 1985). Hunter escolheu 1% porque a falta de pressão num edifício custa caro e o tubo mais grosso custa pouco.

9. A chance do próximo negócio#

Se p fosse conhecido, a resposta seria p, e o histórico seria irrelevante. Mas p é estimado a partir de w vendas em d negócios decididos.

A pergunta correta passa a ser: dado o que já se observou, qual a chance do próximo negócio ser uma venda? Bayes (1763) estabeleceu como atualizar a probabilidade de uma causa diante dos efeitos. Laplace (1814) apresentou a fórmula fechada, a regra de sucessão:

P(próximo = venda) = (w + 1) / (d + 2)

Comportamento nos extremos:

0 venda  em 0 decididos:  (0+1)/(0+2) = 50,0%    ausência de informação
1 venda  em 1 decidido:   (1+1)/(1+2) = 66,7%    promissor, longe de certeza
0 venda  em 5 decididos:  (0+1)/(5+2) = 14,3%    ruim, jamais zero
40 vendas em 100:         (40+1)/(100+2) = 40,2% praticamente a taxa observada

A taxa bruta w/d cravaria 100% para quem venceu 1 de 1, e 0% para quem perdeu 5 de 5. Nenhuma das duas é sustentável.

9.1 Três termos traduzidos#

  • Priori (ou prior): a crença anterior à observação, expressa como um número de vitórias e derrotas fictícias, a e b. A regra de Laplace equivale a a = 1 e b = 1, isto é, uma vitória e uma derrota imaginárias.
  • Distribuição Beta: a família de curvas que descreve a incerteza sobre uma proporção entre 0 e 1. Notada Beta(a, b), ela é o formato natural da crença sobre uma taxa de conversão.
  • Posteriori: a crença depois de somar os dados à crença anterior. Para dados binomiais com priori Beta, a posteriori é Beta(w + a, d - w + b). Essa combinação é o par conjugado clássico (GELMAN et al., 2013).

A média dessa posteriori é a resposta procurada:

P(próximo = venda) = (w + a) / (d + a + b)

Substituindo a ignorância pela informação do time, escolhe-se um peso k, em negócios, e a taxa média do time p_time:

a = p_time × k          b = (1 - p_time) × k

Com p_time = 0,20 e k = 10, portanto a = 2 e b = 8:

1 venda em 1 decidido:      (1 + 2) / (1 + 10) = 3/11  = 27,3%
40 vendas em 100 decididos: (40 + 2) / (100 + 10) = 42/110 = 38,2%

9.2 Quando o dado do próprio vendedor passa a mandar#

O peso relativo do histórico individual é d / (d + k). Com k = 10:

d (decididos)Peso do dado próprioPeso do time
19,1%90,9%
533,3%66,7%
1050,0%50,0%
2066,7%33,3%
3075,0%25,0%
5083,3%16,7%
10090,9%9,1%

O equilíbrio ocorre exatamente em d = k. A partir de 30 negócios decididos, o histórico individual responde por três quartos da estimativa, e a influência do time se torna residual. Não existe um limiar mágico: existe uma transição contínua, e a tabela informa onde ela se encontra.

9.3 A incerteza, e de onde saem 6,7% e 55,6%#

A média da posteriori é um ponto. A posteriori inteira é uma curva, e dela se extraem os limites.

Para um vendedor com 1 venda em 1 decidido, com a = 2 e b = 8:

posteriori = Beta(w + a, d - w + b) = Beta(1 + 2, 1 - 1 + 8) = Beta(3, 8)

quantil de 2,5%  = 0,0667  ->  6,7%
quantil de 97,5% = 0,5561  ->  55,6%

O intervalo de credibilidade de 95% vai de 6,7% a 55,6%. A amplitude é o próprio recado: sobre esse vendedor quase nada se sabe.

Para 20 vendas em 100 decididos, a posteriori é Beta(22, 88), e o intervalo se estreita para 13,1% a 27,9%.

0%10%20%30%40%50%60% taxa de conversão p 1 venda em 1 decidido 20 vendas em 100 decididos

A área sombreada de cada cor é o intervalo de 95% correspondente. A curva clara, larga e baixa, representa desconhecimento. A curva escura, estreita e alta, representa um vendedor conhecido. A dispersão da curva mede, ao mesmo tempo, a variabilidade do vendedor e o quanto dele ainda se ignora.

10. O que envelheceu no método de Hunter#

O método foi adotado pelos códigos e tornou-se padrão. Com o tempo, as estimativas passaram a superdimensionar as instalações. Louças e torneiras ficaram econômicas, e isso alterou exatamente as grandezas que alimentam a fórmula: a duração t e o intervalo T. O p de 1940 não é o p de hoje.

A indústria não descartou a matemática. Recalibrou. A IAPMO desenvolveu, a partir de estudo de campo, a Water Demand Calculator, apresentada em 2017, que chega a reduzir a demanda estimada em cerca de 65% para residências (IAPMO, 2024).

A estrutura do modelo permaneceu válida. Os parâmetros é que envelheceram.

A transposição é imediata. A taxa p de um vendedor não é constante da natureza. Ela muda quando muda o mercado, o produto ou o time. Uma taxa calculada sobre dois anos de histórico mente com a mesma elegância com que a curva de Hunter passou a mentir sobre banheiros modernos. O cálculo precisa de janela temporal, definida pelo gestor, e de atualização a cada nova decisão.

11. Aparelhos diferentes, negócios diferentes#

A binomial exige que as n tentativas compartilhem o mesmo p. Hunter sabia que um vaso sanitário e um lavatório não têm o mesmo t, o mesmo T nem a mesma vazão. A solução dele foi a fixture unit: um peso que converte aparelhos distintos a um denominador comum, combinando probabilidade de uso e vazão.

O problema se repete na venda. Um negócio de 500 mil reais com decisor mapeado não compartilha o p de um negócio de 20 mil reais sem decisor identificado. Tratá-los sob uma taxa única repete o erro que Hunter evitou.

O tratamento formal de tentativas com p distintos é a distribuição Poisson-binomial, e o análogo da fixture unit seria uma unidade de negócio: uma classificação que agrupa oportunidades com comportamento probabilístico semelhante, combinando faixa de valor, presença de decisor e capilaridade no mapa de stakeholders.

Três decisões de projeto se impõem, e convém explicitá-las:

  1. Quem define as faixas. Hunter definiu por tipo de aparelho, com dados de campo. O caminho equivalente é o CRM sugerir faixas a partir do próprio histórico do cliente, e o gestor confirmar ou ajustar. Faixas impostas pelo fornecedor repetiriam o erro dos parâmetros de 1940.
  2. Quantos dados por faixa. Cada faixa passa a ter seu próprio p, e portanto sua própria carência de amostra. A tabela da seção 9.2 vale para cada faixa isoladamente.
  3. Quando agregar. A soma de Bernoullis com p distintos não é binomial. A Poisson-binomial resolve exatamente, e a aproximação de Poisson resolve bem quando os p são pequenos.

Nada disso está implementado até o momento desta publicação. O modelo em uso adota um p único por vendedor, e essa limitação está declarada.

12. Quatro erros que este texto pretende evitar#

  1. "Vieram quatro nãos, o sim está próximo." A distribuição geométrica não tem memória. Restam, em média, 1/p tentativas, sempre. Ver 7.1 Quantos negócios custa uma venda.
  2. "Uma venda em uma tentativa significa 100% de taxa." É a crença na lei dos pequenos números (TVERSKY; KAHNEMAN, 1971). A regra de Laplace devolve 66,7%; a priori do time devolve 27,3%. Ver 9. A chance do próximo negócio. Para saber quando a amostra deixa de ser pequena, ver 9.2 Quando o dado do próprio vendedor passa a mandar: o dado próprio só ultrapassa o do time a partir de 10 negócios decididos.
  3. "A média é o caso típico." Com p = 0,20, a média é 5, mas a mediana é 4 e o desvio padrão, raiz(1-p)/p, vale 4,47, quase o tamanho da média. Em 32,8% dos ciclos o custo supera a média.
  4. "O time será cobrado pelo número de nãos." Quando a medida vira meta, deixa de ser boa medida, formulação popularizada por Strathern (1997). Surgirão nãos baratos: abordagens ruins, negócios sem qualificação, taxa deliberadamente deprimida. O indicador de esforço nunca caminha sozinho.

13. Exercícios#

Recuperar da memória consolida mais do que reler (ROEDIGER; KARPICKE, 2006). As respostas seguem ao final.

  1. Um vendedor fechou 3 negócios em 12 decididos. Qual a chance do próximo ser venda, com a priori do time (a = 2, b = 8)?
  2. Com p = 0,25, quantos negócios decididos garantem 95% de chance de ao menos uma venda?
  3. Calcule C(6,2) pelo fatorial.
  4. Um gestor aceita alpha = 10%. Traduza esse número em linguagem de operação.

Respostas. (1) `(3+2)/(12+2+8) = 5/22 = 22,7%`. (2) `q = 0,75`; `ln(0,05)/ln(0,75) = (-2,9957)/(-0,2877) = 10,41`; logo 11 negócios. (3) `C(6,2) = 6!/(2!×4!) = 720/(2×24) = 15`. (4) Em aproximadamente 10 de cada 100 ciclos, o vendedor encerrará o ciclo sem nenhuma venda, e a operação considera esse resultado aceitável.

Nota de método#

As operações deste texto foram executadas e conferidas em código antes da publicação, incluindo a identidade entre o termo r = 0 da binomial e a fórmula 1 - qⁿ, e a identidade entre o estimador de encolhimento e a média da posteriori Beta-Binomial. As passagens atribuídas a Hunter foram verificadas no relatório original. Os valores numéricos dos exemplos são hipotéticos e servem ao ensino.

Referências (14)
  1. BAYES, T. An essay towards solving a problem in the doctrine of chances. Philosophical Transactions of the Royal Society of London, v. 53, p. 370-418, 1763.
  2. BERGER, J. O. Statistical decision theory and Bayesian analysis. 2. ed. New York: Springer, 1985.
  3. BERNOULLI, J. Ars conjectandi. Basileia: Thurneysen Brothers, 1713.
  4. COWLES, M.; DAVIS, C. On the origins of the .05 level of statistical significance. American Psychologist, v. 37, n. 5, p. 553-558, 1982. Disponível em: https://www2.psych.ubc.ca/~schaller/528Readings/CowlesDavis1982.pdf. Acesso em: 10 jul. 2026.
  5. CROSON, R.; SUNDALI, J. The gambler's fallacy and the hot hand: empirical data from casinos. Journal of Risk and Uncertainty, v. 30, n. 3, p. 195-209, 2005.
  6. DESCHAMPS, W. S. Análise das condições hidrodinâmicas de instalações prediais de água fria: avaliação das incertezas da estimativa de perda de carga. 2019. Trabalho de Conclusão de Curso (Engenharia Civil) - Universidade Regional de Blumenau, Blumenau, 2019.
  7. GELMAN, A. et al. Bayesian data analysis. 3. ed. Boca Raton: CRC Press, 2013.
  8. HUNTER, R. B. Methods of estimating loads in plumbing systems. Washington: National Bureau of Standards, 1940. (Building Materials and Structures Report BMS65). Disponível em: https://archive.org/details/methodsofestimat65hunt. Acesso em: 10 jul. 2026.
  9. IAPMO. Peak water demand study. Ontario: International Association of Plumbing and Mechanical Officials, 2024. Disponível em: https://iapmo.org/media/42ehgafw/peak-water-demand-full-study.pdf. Acesso em: 10 jul. 2026.
  10. LAPLACE, P. S. Essai philosophique sur les probabilités. Paris: Courcier, 1814.
  11. ROEDIGER, H. L.; KARPICKE, J. D. Test-enhanced learning: taking memory tests improves long-term retention. Psychological Science, v. 17, n. 3, p. 249-255, 2006. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16507066/. Acesso em: 10 jul. 2026.
  12. STRATHERN, M. Improving ratings: audit in the British University system. European Review, v. 5, n. 3, p. 305-321, 1997.
  13. TVERSKY, A.; KAHNEMAN, D. Belief in the law of small numbers. Psychological Bulletin, v. 76, n. 2, p. 105-110, 1971.
  14. WASSERSTEIN, R. L.; LAZAR, N. A. The ASA statement on p-values: context, process, and purpose. The American Statistician, v. 70, n. 2, p. 129-133, 2016. Disponível em: https://doi.org/10.1080/00031305.2016.1154108. Acesso em: 10 jul. 2026.
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